Sexta-feira, Agosto 15, 2008
Quarta-feira, Outubro 17, 2007
Segunda-feira, Julho 30, 2007
Cineasta sueco Ingmar Bergman morre aos 89 anos

Fica o respeito por este profílico diretor, que termina uma vida grandiosa, tendo criado não só filmes, mas um verdadeiro gênero próprio, único e inimitável. Seus filmes têm lugar de destaque em minha vida. Quando entrei na faculdade, passei uns dois anos só assistindo Bergman, Woody Allen e Hitchcock. Tenho por ele um carinho imenso, e um grande sentimento de gratidão, pois foi um dos que me ensinou não só a ver, entender e fazer cinema, como também a pensar filosoficamente a vida, a morte e as relações humanas. A Bergman eu deixo meu obrigado por Gritos e Sussurros, Persona, Fanny & Alexander, Sorrisos de Uma Noite de Verão, Morangos Silvestres e o Sétimo Selo! Eu não seria eu mesmo sem estes filmes.
Davi.
Quarta-feira, Julho 04, 2007
Je T'Aime

Paris, Eu te amo ( Paris, Je T'Aime). França . 2006
Lembro-me que a frase era mais ou menos assim: " E de tanto me comportar como um apaixonado, acabei me apaixonando novamente".
20:15, pré-estréia do filme coletivo "Paris, Eu te amo" na Sala de Arte do Museu. Fila grande e o público ouriçado composto em sua maioria por casais de meia idade e senhoras distintas (distintamente "empiriguetadas"). Um grupo atrás de mim comentava: " Nossa, mas porque tanta gente assim? Tudo bem que é pré-estréia e estamos em época de férias mas hoje está realmente cheio". Uma mais sarcástica dizia : "Isso tudo é saudade de Paris? Será que esse povo todo veio ver Paris? Que carência não? Foi aí que minha ficha caiu e percebi que meu solitário programa de sábado à noite poderia virar uma grande tragédia com direito a quase duas horas do mais mais puro e completo blasé nonsense que eu bem já conhecia por conta de " Um filme falado" do Oliveira.
A fila avançou, entrei e cacei um lugar distante dos casais, das senhoras e dos futuros "Uh la las" . A poltrona da turma do gargarejo, estrategicamente localizada embaixo do ar condicionado me aguardava. A luz se apagou e o filme começou. Plano geral de Paris, imagens de um amanhecer (ou seria entardecer? não me lembro). O rapaz desconhecido que sentava ao me lado suspirou: "Parissssss!" E eu pensei: "Me ferrei!"
A trilha era "modernosa" e os primeiros momentos do filme apresentavam um mosaico com imagens das personagens. Me ajeitei na cadeira e percebi como fui precipitada em julgá-lo. Mas é claro que um filme coletivo, rodado em 2006, por 23 diretores e com um time de atores respeitáveis me surpreenderia. Pelo menos uns 3 curtas valeriam a pena, na verdade foram 22, juntos, um atrás do outro, compondo um agradável e emocionante painel de sensações intercalados pelas imagens de uma Paris naturalista, ora fabulosa, ora fantástica, ora bem humorada. No entanto, apesar dos risos soltos, os curtas pareciam estar envolvidos por uma atmosfera de melancolia e tristeza incrivelmente sintetizada no último curta. Um dos melhores do coletivo, trazia a história de uma mulher solitária que passa férias na cidade dos amantes e, como uma Macabéia de Lispector, descobria uma espécie de amor próprio e o sentido da vida.
Ricos diálogos e inusitadas situações aliados à graciosos efeitos especiais, mal entendidos, terror, nouvelle vague, um festival de tipos e uma Paris de fundo não apenas como um bonito cenário mas, um palco maravilhoso para todos aqueles momentos intensos. O desenrolar dos acontecimentos nos mantém quase todo o tempo interessados nas situações por conta do timming certeiro do formato curta metragem. Pequenas explosões seguidas de outras mais fortes e mais fracas acionadas pelo fantástico time de atores conhecidos e um elenco de jovens rostos apaixonantes.
"Paris, Eu te amo" apresenta uma espécie de painel retrospectivo do estilo de filmes europeus produzidos nos últimos 5 anos mas, com o diferencial de tratar do tema do amor a partir de uma visão muito mais melancólica ( e minha volta solitária para casa colaborou bastante para essa sensação).
Sexta-feira, Junho 15, 2007
Zodíaco, The Death Note e o prazer das tramas inteligentes.

O que é um bom roteiro? Quais as características marcantes de uma boa história?Como conduzir uma narrativa de maneira dinâmica e eficiente ? Como fazer com que o leitor (espectador) se mantenha conectado à obra de maneira intensa, a ponto de transformar tempo em espaço único de apreciação? Como ganhar? Como seduzir?
Mesmo os criadores menos preocupados (a priori) com a resposta do público, fazem perguntas desse tipo durante as etapas de um roteiro, e mais precisamente em sua parte final - momento decisivo para os "encontros da compreensão". Coisa do tipo: "Eu estou aqui falando com você há horas, gastando o meu latim, minhas mais preciosas piadas espirituosas, minha elegância e meu senso de humor. Gostaria de compartilhar isso com você. Me escute, me acompanhe, reaja, complete meu raciocínio, façamos um agradável jogo, tenhamos uma proveitosa conversa". É mais ou menos assim que compreendo esse universo das histórias de suspense e intriga. Apesar de não ser meu gênero preferido, é impossível ficar indiferente a uma boa jogada.
É complicado definir em que estágio de popularidade se encontra o anime The Death Note. Tomei conhecimento da obra no meio de 2007. O mercado de animes e mangás é alucinante, a cada minuto novas e excelentes obras são lançadas, por grandes ou pequenas editoras, e é difícil de acompanhar a $novidade$. Pois bem, The Death Note foi e ainda é sensação - dois longas adaptados, mais de 30 episódios do anime e o lançamento no Brasil do mangá original pela editora JBC.
Mesmo os criadores menos preocupados (a priori) com a resposta do público, fazem perguntas desse tipo durante as etapas de um roteiro, e mais precisamente em sua parte final - momento decisivo para os "encontros da compreensão". Coisa do tipo: "Eu estou aqui falando com você há horas, gastando o meu latim, minhas mais preciosas piadas espirituosas, minha elegância e meu senso de humor. Gostaria de compartilhar isso com você. Me escute, me acompanhe, reaja, complete meu raciocínio, façamos um agradável jogo, tenhamos uma proveitosa conversa". É mais ou menos assim que compreendo esse universo das histórias de suspense e intriga. Apesar de não ser meu gênero preferido, é impossível ficar indiferente a uma boa jogada.
É complicado definir em que estágio de popularidade se encontra o anime The Death Note. Tomei conhecimento da obra no meio de 2007. O mercado de animes e mangás é alucinante, a cada minuto novas e excelentes obras são lançadas, por grandes ou pequenas editoras, e é difícil de acompanhar a $novidade$. Pois bem, The Death Note foi e ainda é sensação - dois longas adaptados, mais de 30 episódios do anime e o lançamento no Brasil do mangá original pela editora JBC.

A história é macabra, estranha e polêmica. Ao contrário do que as pessoas que não conhecem o universo de mangás e animes pensam - desenhos de bichinhos engraçadinhos sobre universo infantil e adolescente - The Death Note é um dos bons exemplos de uma obra direcionada à um público mais adulto. Um anime que agrega arte e bom argumento.
A obra de Tsugumi Ooba (roteiro) e Takeshi Obata (arte) se embrenha pelo espinhoso caminho dos temas da pena de morte, do julgamento, do fanatismo, do terrorismo e da intolerância. Aliados aos elementos do fantástico e do mágico - que na verdade se comportam claramente como elementos simbólicos - A história nos apresenta monstros e demônios mais complexos que a simples representação do mal.
Sinopse retirada do site www.deathnote.com.br (onde você também encontra o anime para download) :
Raito Yagami é um jovem estudante prodígio, que leva uma vida que ele considera entediante. Isso muda em um dia de 2003, quando ele encontra, no colégio, um estranho caderno, com o título de "Death Note". No ínicio, ele imagina ser apenas uma brincadeira de mal gosto, mas, após testá-lo, começa a aplicar um "castigo divino" aos criminosos. Não demora para descobrir que o caderno pertence a um shinigami (demônio da morte) chamado Ryuuku.
Sem muita demora, a polícia suspeita que alguém é responsável pelas mortes misteriosas de criminosos. A força policial começa a trabalhar em conjunto com L, conhecido como o melhor detetive do mundo. Raito, agora intitulado de Kira por seus admiradores e pela imprensa, continua perseguindo seu objetivo de limpar o mundo, assassinando criminosos Japão afora. Começa então um jogo de gato e rato entre eles, para ver quem terá sua identidade exposta primeiro.
E é justamente esse jogo de "gato e rato" entre as interessantes personagens o que garante o sucesso da trama. Kira é jovem, loiro, bonito e inteligente. Um rapaz que não apresenta nenhum tipo de suspeita, mas que no entanto, já nos primeiros episódios, revela uma personalidade doentia de psicopata calculista. L é um tipo bizarro, uma espécie de herói-nerd-sombrio, com problemas de comunicação, quase um autista. Mais do que "estilo", as personagens apresentam uma dissimulação muito humana, que é pontualmente acompanhada e apreciada pelos "shinigamis".
É claro que a semelhança com filmes sobre assassinos em série é inevitável. As tramas apresentam quase os mesmos elementos: terror, investigação, falsos suspeitos, falsos motivos, pistas e mais pitas que transformam a história num angustiante quebra cabeça. Mas nesse caso, ao montar todas as peças, ao descobrir o enigma (já já falo de Zodiaco), estamos mais que saciando algum tipo de obsessão, estamos lutando contra o mal, colocando o mal-feitor na cadeia e vencendo, junto com o "mocinho", a guerra psicológica
Kira tinha um motivo para matar pessoas, Zodiaco não necessariamente. O que une essas histórias então? O vai e vem da trama, a inteligência dos assassinos, dos envolvidos, dos detetives e dos autores.
A obra de Tsugumi Ooba (roteiro) e Takeshi Obata (arte) se embrenha pelo espinhoso caminho dos temas da pena de morte, do julgamento, do fanatismo, do terrorismo e da intolerância. Aliados aos elementos do fantástico e do mágico - que na verdade se comportam claramente como elementos simbólicos - A história nos apresenta monstros e demônios mais complexos que a simples representação do mal.
Sinopse retirada do site www.deathnote.com.br (onde você também encontra o anime para download) :
Raito Yagami é um jovem estudante prodígio, que leva uma vida que ele considera entediante. Isso muda em um dia de 2003, quando ele encontra, no colégio, um estranho caderno, com o título de "Death Note". No ínicio, ele imagina ser apenas uma brincadeira de mal gosto, mas, após testá-lo, começa a aplicar um "castigo divino" aos criminosos. Não demora para descobrir que o caderno pertence a um shinigami (demônio da morte) chamado Ryuuku.
Sem muita demora, a polícia suspeita que alguém é responsável pelas mortes misteriosas de criminosos. A força policial começa a trabalhar em conjunto com L, conhecido como o melhor detetive do mundo. Raito, agora intitulado de Kira por seus admiradores e pela imprensa, continua perseguindo seu objetivo de limpar o mundo, assassinando criminosos Japão afora. Começa então um jogo de gato e rato entre eles, para ver quem terá sua identidade exposta primeiro.
E é justamente esse jogo de "gato e rato" entre as interessantes personagens o que garante o sucesso da trama. Kira é jovem, loiro, bonito e inteligente. Um rapaz que não apresenta nenhum tipo de suspeita, mas que no entanto, já nos primeiros episódios, revela uma personalidade doentia de psicopata calculista. L é um tipo bizarro, uma espécie de herói-nerd-sombrio, com problemas de comunicação, quase um autista. Mais do que "estilo", as personagens apresentam uma dissimulação muito humana, que é pontualmente acompanhada e apreciada pelos "shinigamis".
É claro que a semelhança com filmes sobre assassinos em série é inevitável. As tramas apresentam quase os mesmos elementos: terror, investigação, falsos suspeitos, falsos motivos, pistas e mais pitas que transformam a história num angustiante quebra cabeça. Mas nesse caso, ao montar todas as peças, ao descobrir o enigma (já já falo de Zodiaco), estamos mais que saciando algum tipo de obsessão, estamos lutando contra o mal, colocando o mal-feitor na cadeia e vencendo, junto com o "mocinho", a guerra psicológica
Kira tinha um motivo para matar pessoas, Zodiaco não necessariamente. O que une essas histórias então? O vai e vem da trama, a inteligência dos assassinos, dos envolvidos, dos detetives e dos autores.

David Fincher é um grande diretor, e que, mesmo com um roteiro não muito bem amarrado (até mesmo como próprio The Death Note em seus primeiros episódios), consegue realizar um filme intenso, que traz em seu elenco atores consagrados como Robert Downey Jr., além do estranho (e competente) Jake Gyllenhaal.
O roteiro de James Vanderbilt, baseado no livro de Robert Graysmith, conta a história real do serial killer Zodíaco que aterrorizou nas décadas de 60 e 70 cidade de São Francisco. A impressão que temos é que, por querer ser muito fiel à história real, o filme se torna um tanto cansativo, longo, com excessos de plot points - como num formato de série. No entanto, nem esse exagero de tempo e informações consegue nos cansar do cinema de David Fincher, que a cada seqüência nos presenteia com grandes momentos cinematográficos, movimentos de câmera fabulosos e momentos de tensão aterradores, "naturalmente" cruéis, em conjunto com o timming perfeito do terror estilizado. Zodíaco mata de noite, de dia, na beira da lagoa. Zodíaco faz terrorismo através da mídia (com cenas incrivelmente parecidas com as de The Death Note).
Com simplicidade e sutileza, o diretor constrói o medo de forma despretensiosa. O crime, tão natural e corriqueiro, assusta ainda mais, pois nos lembra que poderíamos estar (e, de fato, estamos) ali dentro, junto com os personagens, na mão de um assassino estranho chamado Zodíaco. É essa estratégia de câmera que fica evidente logo no começo, quando um casal adolescente é morto dentro de um carro, em uma pequena cidade norte-americana. A imagem é sempre captada de dentro do carro, impedindo o olhar externo. Ficamos no carro e morremos com eles.
O protagonista, o cartunista vivido por Jake Gyllenhaal, sai um pouco de cana depois da introdução do filme, dando lugar ao trabalho da polícia. O inspetor David Toschi (Mark Rufalo) é um personagem muito interessante, como todos do filme, aliás (outra semelhança com Death Note). Pequeno, gordinho, com trejeitos curtos, voz suave e feminina, o personagem é uma versão muito própria do clichê do policial durão. Mesmo com todos esses atributos originais, o personagem não perde sua força e virilidade policial. A atuação de Downey Jr., memorável como de costume, é um deleite à parte. Neste filme, ele encarna um jornalista alcóolatra e canastrão, daquele tipo que, quanto mais miséria faz, mais carismático fica.
O esquema de investigação lembra tanto filmes policiais clássicos (a descrição minima e elegante dos irritantes passos da ivestigação lembra a peregrinação de Jack Nicholson em Chinatown), quanto novos (a construção dos policiais burros e de certos tipos americanos, além do humor, lembra o trabalho dos irmãos Coen). No território do jornal, a referência obrigatória (óbvia até), é a Todos os Homens do Presidente. Zodíaco, porém, parece ir além na reconstrução do ambiente da redação, que ganha um aspecto mais humano e realista, em contraposição à atmosfera pesada de Todos os Homens... (também não era pra menos: o filme fala de Watergate e tem Robert Redford no elenco).
A trilha sonora e o climão 60-70 são, para mim, as melhores coisas do filme. Fincher e Shire ganham meu coração ao misturarem Three Dog Night, Santana, Eric Burdon and The Animals, Gaye, Coltrane e Davis numa mesma película.
O roteiro de James Vanderbilt, baseado no livro de Robert Graysmith, conta a história real do serial killer Zodíaco que aterrorizou nas décadas de 60 e 70 cidade de São Francisco. A impressão que temos é que, por querer ser muito fiel à história real, o filme se torna um tanto cansativo, longo, com excessos de plot points - como num formato de série. No entanto, nem esse exagero de tempo e informações consegue nos cansar do cinema de David Fincher, que a cada seqüência nos presenteia com grandes momentos cinematográficos, movimentos de câmera fabulosos e momentos de tensão aterradores, "naturalmente" cruéis, em conjunto com o timming perfeito do terror estilizado. Zodíaco mata de noite, de dia, na beira da lagoa. Zodíaco faz terrorismo através da mídia (com cenas incrivelmente parecidas com as de The Death Note).
Com simplicidade e sutileza, o diretor constrói o medo de forma despretensiosa. O crime, tão natural e corriqueiro, assusta ainda mais, pois nos lembra que poderíamos estar (e, de fato, estamos) ali dentro, junto com os personagens, na mão de um assassino estranho chamado Zodíaco. É essa estratégia de câmera que fica evidente logo no começo, quando um casal adolescente é morto dentro de um carro, em uma pequena cidade norte-americana. A imagem é sempre captada de dentro do carro, impedindo o olhar externo. Ficamos no carro e morremos com eles.
O protagonista, o cartunista vivido por Jake Gyllenhaal, sai um pouco de cana depois da introdução do filme, dando lugar ao trabalho da polícia. O inspetor David Toschi (Mark Rufalo) é um personagem muito interessante, como todos do filme, aliás (outra semelhança com Death Note). Pequeno, gordinho, com trejeitos curtos, voz suave e feminina, o personagem é uma versão muito própria do clichê do policial durão. Mesmo com todos esses atributos originais, o personagem não perde sua força e virilidade policial. A atuação de Downey Jr., memorável como de costume, é um deleite à parte. Neste filme, ele encarna um jornalista alcóolatra e canastrão, daquele tipo que, quanto mais miséria faz, mais carismático fica.
O esquema de investigação lembra tanto filmes policiais clássicos (a descrição minima e elegante dos irritantes passos da ivestigação lembra a peregrinação de Jack Nicholson em Chinatown), quanto novos (a construção dos policiais burros e de certos tipos americanos, além do humor, lembra o trabalho dos irmãos Coen). No território do jornal, a referência obrigatória (óbvia até), é a Todos os Homens do Presidente. Zodíaco, porém, parece ir além na reconstrução do ambiente da redação, que ganha um aspecto mais humano e realista, em contraposição à atmosfera pesada de Todos os Homens... (também não era pra menos: o filme fala de Watergate e tem Robert Redford no elenco).
A trilha sonora e o climão 60-70 são, para mim, as melhores coisas do filme. Fincher e Shire ganham meu coração ao misturarem Three Dog Night, Santana, Eric Burdon and The Animals, Gaye, Coltrane e Davis numa mesma película.

"A partir deste mês O CRONISTA passa a circular em Salvador, com o objetivo de fazer um jornalismo alternativo, analítico, leve e, na medida do possível, bem humorado.
(...)
"O jornal O CRONISTA é distribuído gratuitamente nas unidades da UFBA, cinemas da Sala de Arte, teatros, institutos culturais, locadoras de DVD, lojas de CD, cafés e restaurantes."
Tá, e qual é meu interesse divulgando isso?, vocês podem perguntar.
Eu respondo: é que eu estou escrevendo sobre os lançamentos de DVD nesse mesmo jornal. Tem site também: http://www.ocronista.net/
É isso!
Davi
Terça-feira, Maio 15, 2007
Ó Paí, Ó

(Monique Gardenberg, 2007, Brasil)
por Ele
Dentre os efeitos que um filme produz, um dos mais importantes é o do reconhecimento. Mas ele não é o único. A identificação com os personagens é o que nos comove a cada revés negativo ou positivo que ele passa. Se ele perde, perdemos também. Se vence, vencemos com ele. O estabelecimento do protagonista é conseqüência lógica do fato de que cada espectador só pode assumir uma única instância do olhar. Ó Pai, Ó, embora falhe na identificação, funciona às mil maravilhas no reconhecimento. É um fenômeno. Uma amiga me contou: viu o filme no tabuleiro de uma baiana. A identificação com o público de Salvador é digna de nota. De fato, a esculhambação sadia e muito baiana que se vê ali não havia ainda encontrado representação fidedigna em nosso cinema recente. Estão lá o vocabulário, o sotaque e, especialmente, o jeito nonsense de ser que conhecemos das ruas, do carnaval, do teatro.
O humor segue o padrão dos esquetes, apoiado no elenco competente, e em situações construídas com escracho incomum no cinema brasileiro atual. O excesso de personagens é evidente. A progressão dramática é falha ou inexiste, e no final tudo se resolve com belas imagens de carnaval. Predomina a estética publicitária, apoiada na construção estereotipada do roteiro (mas que, de tão exagerada, entra no território da fantasia, evitando também a condenação fácil). Há pouco para se falar dos planos, pois o filme tem montagem televisiva, descartável e irrelevante.
No final, quando o fato trágico se acompanha da música que surge de sopetão, com jeito brega e apelativo, fica clara a influência teatral, não só na atuação, mas também em termos de construção de clímax. Aquela música que toma de assalto e dá o tom do melodrama tem muito de teatro baiano mesmo, e não necessariamente do que ele tem de melhor: o drama social soa, por isso, ultrapassado, carecendo de verdade (mesmo que seja o fato uma realidade, ele não a encontra dentro do filme).
O efeito final tem sido positivo, ao menos na capital baiana. O público de Salvador, embalado por uma nostalgia irresistível, sai das salas de cinema satisfeito. Sinal não tanto da competência do filme, mas de uma carência geral de representatividade. Por isso, duvido que a reação tenha se reproduzido em outros estados brasileiro.
Ao elenco do Bando de Teatro Olodum, no entanto, fica o mérito de recriar com eficiência os arquétipos da vida baiana, dando-lhes forma e representação para futura referência. Me pergunto o que poderia acontecer se o filme tivesse também uma boa história. O texto original, de peça do Bando de Teatro Olodum, fazia um questionamento pungente à política de restauração do Pelourinho, quando famílias foram coagidas a abandonar seus lares por indenizações irrisórias. Uma oportunidade, entre tantas que se perdem no roteiro de Monique Gardenberg.
ps: para apresentar um contraponto, deixo com vocês o link do comentário emocionado (e a meu ver exagerado...) de Arnaldo Jabor sobre o filme. Ouça aqui.
ps2: o comentário de André Setaro merece também ser lido. Como sempre, uma lição de crítica e conhecimento cinematográfico. Leia clicando aqui.

(Monique Gardenberg, 2007, Brasil)
por Ele
Dentre os efeitos que um filme produz, um dos mais importantes é o do reconhecimento. Mas ele não é o único. A identificação com os personagens é o que nos comove a cada revés negativo ou positivo que ele passa. Se ele perde, perdemos também. Se vence, vencemos com ele. O estabelecimento do protagonista é conseqüência lógica do fato de que cada espectador só pode assumir uma única instância do olhar. Ó Pai, Ó, embora falhe na identificação, funciona às mil maravilhas no reconhecimento. É um fenômeno. Uma amiga me contou: viu o filme no tabuleiro de uma baiana. A identificação com o público de Salvador é digna de nota. De fato, a esculhambação sadia e muito baiana que se vê ali não havia ainda encontrado representação fidedigna em nosso cinema recente. Estão lá o vocabulário, o sotaque e, especialmente, o jeito nonsense de ser que conhecemos das ruas, do carnaval, do teatro.
O humor segue o padrão dos esquetes, apoiado no elenco competente, e em situações construídas com escracho incomum no cinema brasileiro atual. O excesso de personagens é evidente. A progressão dramática é falha ou inexiste, e no final tudo se resolve com belas imagens de carnaval. Predomina a estética publicitária, apoiada na construção estereotipada do roteiro (mas que, de tão exagerada, entra no território da fantasia, evitando também a condenação fácil). Há pouco para se falar dos planos, pois o filme tem montagem televisiva, descartável e irrelevante.
No final, quando o fato trágico se acompanha da música que surge de sopetão, com jeito brega e apelativo, fica clara a influência teatral, não só na atuação, mas também em termos de construção de clímax. Aquela música que toma de assalto e dá o tom do melodrama tem muito de teatro baiano mesmo, e não necessariamente do que ele tem de melhor: o drama social soa, por isso, ultrapassado, carecendo de verdade (mesmo que seja o fato uma realidade, ele não a encontra dentro do filme).
O efeito final tem sido positivo, ao menos na capital baiana. O público de Salvador, embalado por uma nostalgia irresistível, sai das salas de cinema satisfeito. Sinal não tanto da competência do filme, mas de uma carência geral de representatividade. Por isso, duvido que a reação tenha se reproduzido em outros estados brasileiro.
Ao elenco do Bando de Teatro Olodum, no entanto, fica o mérito de recriar com eficiência os arquétipos da vida baiana, dando-lhes forma e representação para futura referência. Me pergunto o que poderia acontecer se o filme tivesse também uma boa história. O texto original, de peça do Bando de Teatro Olodum, fazia um questionamento pungente à política de restauração do Pelourinho, quando famílias foram coagidas a abandonar seus lares por indenizações irrisórias. Uma oportunidade, entre tantas que se perdem no roteiro de Monique Gardenberg.
ps: para apresentar um contraponto, deixo com vocês o link do comentário emocionado (e a meu ver exagerado...) de Arnaldo Jabor sobre o filme. Ouça aqui.
ps2: o comentário de André Setaro merece também ser lido. Como sempre, uma lição de crítica e conhecimento cinematográfico. Leia clicando aqui.
Sábado, Maio 12, 2007
Carta ao Leitor

por Ele
Os manuais de blogagem dizem que é bom estabelecer o texto como um diálogo com o leitor. O Ele, Ela surgiu como uma oportunidade de agrupar interesses e abordagens em torno do cinema. Nos preocupamos em oferecer uma visão que reflita a informações que adquirimos nos filmes que vimos, textos que lemos e trabalhos que realizamos (na aba esquerda do blog estão listados os nossos vídeos disponíveis na rede).
Que temos poucos leitores é um fato incontestável, como o é para a maioria dos blogs. Hoje em dia, a internet é uma babel de conteúdo de mídia. Músicas, vídeos curtos, filmes, animações e textos disputam a nossa atenção de forma desigual. Sobra pouco tempo para leituras mais longas (e este é um paradoxo do qual eu faço parte), como tem sido a praxe desse espaço. Até tentamos diminuir nossos textos, mas esbarramos quase sempre no impulso crônico de abrir frentes de batalha com calhamaços revoltosos. Por esse motivo, talvez, recebemos um número relativamente grande de respostas contrárias (o que é bom), azedas (o que não chega a incomodar) e pessoalmente ofensivas (que realmente incomodam).
Não tenho o costume de eufemizar meus pensamentos. Parto do pressuposto de que, antes das mesuras, deve existir um entendimento prévio de que toda opinião é tão válida quanto contestável. Pelo simples fato de que todo ser humano erra, eu evito fazer textos que contenham pedidos de desculpa ou admoestações veladas. O que eu tenho para dizer, procuro simplesmente dizer, sem meias verdades que tornem minhas opiniões mais simpáticas. Admiro a dedução curta, que se presta à oposição franca e elimina de seu escopo todo embelezamento desnecessário. É justamente por entender que tudo é questionável que eu não sinto necessidade de enfatizar a natureza efêmera de toda e qualquer opinião que eu expresso.
Não advogo que a crítica deva ser sempre construtiva, no sentido que se usa atualmente. A crítica, muitas vezes, deve ter sim o propósito de destruir, no sentido de demolir concepções recalcadas, posturas equivocadas ou falta de informação. Eu, certamente, tenho minha quota de cada um desses defeitos.
Não tenho nenhum problema em receber (ou fazer) críticas a este tipo de conteúdo. Mesmo que incomode, esse é um incômodo necessário e saudável, que nos incita a auto-crítica. O que incomoda mesmo é quando o comentário vem junto à tentativa de ofender ou desestabilizar o interlocutor. Esse tipo de comentário revela mais sobre o comentarista que sobre o texto comentado. Com muita facilidade, tentam nos enquadrar em parâmetros de comportamento dos quais não compartilhamos. Como diria aquele personagem do Zorra Total: “não esperou eu molhar o bico!”.
Sentimos que há uma percepção de que nós representamos alguma corrente ou grupo de opinião, como se fizéssemos parte da mídia jornalística profissional. Não se trata disso. Existem muitos temas sobre os quais não escrevemos porquê não queremos, por um lado, ou porquê não temos bagagem suficiente, por outro. Só isso já impossibilitaria uma abordagem jornalística, cuja função é antes de tudo informar, a despeito de nossas preferências. Blogs são espaços pessoais, e não ganhamos um centavo para escrever neles. Escrevemos apenas sobre o que conhecemos, e não somente sobre o que gostamos. Não temos bola de cristal, e nem representamos uma escola de pensamento qualquer. Somos apenas dois amantes do cinema que vêem filmes, fazem filmes e escrevem sobre filmes. Porquê nos dá prazer. Ofensas pessoais não fazem parte do escopo cinematográfico. Dito isso, fica o convite para que você, que está lendo, comente, discorde ou critique nossos textos. Não tenho nenhum problema em admitir que estou errado quando me apresentam argumentos para tanto. Mas não esperem que eu peça desculpas por minhas opiniões.
É isso!
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